PASSAPORTE DE EMIGRANTE
Conceição Flores – Univ. Potiguar
Para a Constância Lima Duarte
A emigração: uma constante açoriana
Quando Diogo de Silves, cavaleiro da Casa do Infante, descobriu os Açores, as ilhas eram desabitadas e logo atraíram colonos não só das zonas mais povoadas do continente, mas também estrangeiros, principalmente flamengos, pois a terra era fértil e o clima ameno. Enquanto a população de Portugal continental, durante os séculos XV, XVI e XVII, se manteve estacionária em torno de um milhão de habitantes, a açoriana crescia, vindo a se constituir como uma “reserva” estratégia para o povoamento do Império português.
Apesar da documentação ser escassa, sabe-se que em 1550 foi enviada uma leva de oitocentos casais açorianos para o Maranhão[1]. Segundo a tradição, o povoamento do Ceará teria sido iniciado por um colono açoriano que por aqui se apaixonou por uma índia. Em meados do século XVIII, sabe-se que vieram para a capitania de Santa Catarina seis mil açorianos, recrutados entre lavradores, pastores e artesãos.
A partir do século XIX, os açorianos passaram a escolher outro destino. Começava o sonho de “fazer a América”. Quando voltavam ricos, passavam a ser os “americanos”, alimentando o sonho dos que desejavam partir. Para falar sobre esse tema, escolhemos três contos de autores açorianos que mostram como se pode obter um passaporte de emigrante e como é o cotidiano nas terras da América.
“Passaporte de emigrante”[2]
O que fazer quando há alguém na família com algum problema de saúde? É o que vamos ver neste conto. Francisco Hereje havia se inscrito, juntamente com a família, para emigrar. Havia descartado o Brasil por ser “terra do esquecimento”. Para os Estados Unidos, só por cotas. Escolhera o Canadá “pela graça” e por ter ouvido dizer que “lá os governos davam trabalho para todos”.
Passados quatro meses foi chamado e começou a tratar da papelada: bilhete de identidade, registro criminal e “mais daqui e mais dali” até lhe dizerem que arranjasse “o dinheiro para as passagens e os cem dólares para pôr num Banco do Canadá”, pois “só lhe faltava passar na chapa do raio X”. Para arranjar o dinheiro, foi aos bancos, que lho negaram; para o pobre a solução é o agiota: juros altos, pagos antecipadamente e fiança, no caso, a do sogro e a do padrinho. O problema era o raio X. A filha mais nova, devido ao mau “passadio” era “biqueira, sempre amarelinha (...), coitadinha, uma desgraça” e “se um tem doença, fica tudo atrás”.
Ora, o nosso Francisco Hereje “andava com um peso no coração”, pois se não emigrasse haveria “de morrer à fome para pagar as dívidas”. A mulher, então, lembrou-se que a filha do Jacinto Toré havia nascido no mesmo dia da sua. E se ele a emprestasse, “está tão riquinha”, para tirarem o raio X? Toré que não queria ter “um remorso para toda a vida”, concordou. No dia aprazado, lá foi a filha do Toré no lugar da filha do Hereje. Deu tudo certo e, quando a primavera chegou, o Hereje e sua família embarcaram para o Canadá.
Só uma breve nota. O nome do personagem, homófono de herege, não segue o que está estabelecido. O nosso Hereje faz jus ao sentido etimológico grego, isto é, “escolha, eleição, preferência”[3]. À miséria e à falta de perspectiva na ilha, escolhera o Canadá e a esperança de um futuro melhor.
“O embarque”[4]
Acabamos de ver uma das formas que os açorianos têm para emigrar. Agora iremos ver uma outra. O conto transporta-nos aos arraiais e às procissões de verão, onde se reencontram os que partem e os que ficam.
Alberto era um “empregadote público na cidade”, fazia versos e voltava todos os anos a convite do senhor Sousa, o “tiranete da freguesia”, pois este devia favores à sua família. Viera à festa pensando encontrar a “americana”; esta “já devia ter os seus trinta e pique, mas, que diabo! uma passagem para a América devia custar muito mais caro”. O que ele queria era “a América e uma americana rica”, pois “estava condenado geograficamente. Estava preso numa ilha perdida no meio do mar.” No arraial a “americana” não apareceu. No dia da procissão, Alberto esperava encontrá-la, continuava obcecado pela “calafona bruta”[5].
O Eduardo, seu amigo, já estava na América. “Não casara com uma loura, nem com uma mulher rica, nem com uma americana: casara com um passaporte”. Alberto tinha o mesmo desejo, pois a “trintona forte e mexida” já lhe havia sorrido. Afinal que lhe importava “o seu namoro à portuguesa-velha, de janela” com a Lígia? Haveria de dizer-lhe:
Ó Lígia, isto passa-se assim, assim, eu preciso ir para a América e o meu passaporte é o seguinte ... Ela havia de chorar, os seus olhos pretos ficariam inchados de chorar, mas era mal de quinze dias, ele ia para a América e, quem sabe, dois anos, cinco, dez, vinte, havia de voltar, da América volta-se sempre e ... se não fosse aquela Lígia seria outra ... (Lima, 1978: 149).
A procissão ia a sair, quando uma buzina estridente fez com que Alberto se virasse. Era “um lindo carro aberto, comprido”; ao volante a americana. Parou e perguntou: “Want go for a ride?”.
Alberto havia, com certeza, obtido o tão almejado passaporte. Dele se diria também “casou com um passaporte!”.
“(Sapa)Teia quotidiana”[6]
Até aqui temos vindo a ver as teias que se armam para obter o tão almejado passaporte. Agora veremos o cotidiano do emigrante.
António é um rapaz de dezassete anos que emigrou há quatro com a família. Nos Açores só tinha estudado até a 4ª classe, pois a 5ª e 6ª haviam ficado na contínua espera dos professores do continente. Diz-nos o narrador num comentário irônico “que vinham a nado de Lisboa para as ilhas”, o que era bem verdade, pois esperava-se todos os anos pelos professores do continente que, para as capitais dos distritos, chegavam depois do Natal, para as vilas... Na América, António fora programado “entre gravadores, filmes, cartões sonoros, televisores, diapositivos, auscultadores e discos” e alguns “contactos com técnicas personificadas, vulgarmente conhecidas como ‘professores’, que iam de vez em quando” para “seis horas por dia a cinco dias por semana de inglês”.
Além disso ainda havia, na meia hora de intervalo, o baseball e o hot dog. A sua vingança era, à tarde e aos fins de semana, “o futebol, o chouriço, a sopa, o português”. Aos dezasseis anos, alcançara a liberdade, pois “ mexim, por mexim[7], preferia os da fábrica, que passavam cheque no fim de semana”. Tirara a carteira de condução e comprara um Buick, isto é, algo “entre o autocarro e o automóvel. Em tamanho e função.”
Aprendera que na América não havia favores e “ainda chamavam tolo a quem desse um raide[8] por nada[9].” O cheque da fábrica ficava quase todo em casa, pois o pai logo dissera:
Porque é que tu pensas que eu não me importei que saísses da escola, rapazinho? Pensavas agora que ias andar para aí como o filho do morgado de algibeira cheia!... Enquanto estiveres em casa, meu home, o cheque é para o monte, como os teus irmãos. Lá os avataimes[10] que fizeres, isso eu não lhe toco. (Almeida, 1978: 74.).
As oito horas de trabalho, para António, passavam lentamente. “Mas entrar na nona hora... era a posse, o meu, o deste-ele-não-nada, o fim de semana, o reisse[11] de carros, o deite[12], o draive-in[13].”A esse dinheirinho das horas extras ou dos biscates somava-se toda a semana o da “via-sacra encurtecida, de cinco estações para cada lado”. Ou seja, todos os dias António levava no seu Buick “cinco passageiros toda a semana vezes três dólares”, eram “mais quinze limpinhas”. Chegando na fábrica, iniciava-se a “sapateia” cotidiana.
A Sapateia é uma dança tradicional açoriana. Ora a dança é celebração, um ritual mágico de libertação do cotidiano, que também está relacionada com a provação, constituindo-se como uma prece (Chevalier, 1993: 319). A nosso ver, este é o caso da Sapateia, pois, a letra - “ai quantas vezes ai quantas, o jantar serve de ceia” – fala de um cotidiano de privações que, no momento da dança, se sagra como ritual de esperança, uma prece. Ao intitular o conto de “(Sapa)Teia quotidiana”, Onésimo Teotónio de Almeida dessacraliza a dança e a palavra passa a designar, por extensão, “o dançar conforme a música”, isto é, o ritual cotidiano de todo o emigrante.
E para concluir...
Conta uma lenda que eram dez as ilhas açorianas. Uma desapareceu e cada açoriano busca essa ilha, a sua ilha. Parte-se em busca dessa ilha, que pode estar no vale de São Joaquim, na Califórnia, em Boston, em Fall River, em Toronto, no Rio, em São Paulo, em Natal. Onde houver um açoriano, ali está a décima ilha. Vimos que os caminhos para a desejada a América são variados, porém nenhum é fácil. O que alimenta todo o açoriano que parte é a esperança de dias melhores. Somos, atualmente, aproximadamente duzentos e quarenta mil nas ilhas; vivendo na América do Norte[14] mais de cento e setenta mil.
Por que tantos partem? Será, como disse Camões, por que “a terra se acaba e o mar começa”? Mas nestes tempos já não há terras para descobrir... Apropriando-me das palavras de Saramago, gostaria de poder dizer “o mar se acabou e a terra” é nossa. Eis a décima ilha!
Referências Bibliográficas:
ALMEIDA, Onésimo Teotónio de. “(Sapa)teia quotidiana”. In: Antologia do conto açoriano. Lisboa: Vega, 1978, p. 73-6.
CHEVALIER, Jean. GHEERBRANT, Alain. Dicionário de símbolos. Rio de Janeiro: José Olympio, 1993.
LIMA, Fernando de. “O embarque”. In: Antologia do conto açoriano. Lisboa: Vega, 1978, p. 147-9.
MACHADO, José Pedro. Dicionário etimológico da língua portuguesa. 1ª ed. Lisboa: Confluência, 1956-1959, 2 vol.
MORAIS, Ruy-Guilherme de. “Passaporte de emigrante”. In: Antologia do conto açoriano. Lisboa: Vega, 1978, p.133-7.
[1] “Chorographia açorica”. In: Anais de Arzila. Lisboa, 1821.
[2] Este conto é de Ruy-Guilherme de Morais, jornalista açoriano; foi publicado em 1961.
[3] Machado, José Pedro. Dicionário etimológico da língua portuguesa. 1ª ed. Lisboa: Confluência, 1956-1959, 2 vol.
[4] Este conto foi escrito, em 1948, por Fernando de Lima, jornalista e um dos fundadores do Círculo literário Antero de Quental.
[5] Nos Açores, designam-se por calafonas os que regressam da América do Norte, falando um português em que se mistura um inglês de emigrante, usam roupas espalhafatosas e fazem-se notar onde quer que estejam, falando alto para que todos vejam a sua prosperidade. Fruto dessa emigração, temos um vocabulário sui generis que denota essa influência. Por exemplo: dizemos suera em vez de agasalho, paio de maçã em vez de torta, chelipas em vez de chinelos, pinotes em vez de amendoins.
[6] Este conto é da autoria de Onésimo Teotónio de Almeida, professor na Brown University.
[7] Machine – máquina. Ao longo do conto o autor irá se apropriar da fala do emigrante, isto é, de um inglês mal pronunciado e misturado com o português, que caracteriza a linguagem dos calafonas. Onésimo usa notas de roda pé onde transcreve a palavra em inglês e sua respectiva tradução. Assim, todas as notas explicativas relativas a essas palavras são do próprio autor.
[8] Ride – boleia.
[9] Tradução literal de for nothing – de graça.
[10] Overtime – horas extraordionárias.
[11] Race - corrida.
[12] Date, encontro marcado entre moço e moça, normalmente incluindo um jantar e ida a um espetáculo ou baile.
[13] Drive-in.
[14] Segundo dados fornecidos pela Direção Regional das Comunidades, de 1960 a 1999 emigraram 179019 açorianos para os EUA, Canadá e Bermuda. Dos que optaram por outros destinos, não há dados disponíveis.